Análise do filme: A Partida

Resenha: Um rapaz chamado Daiko perde o emprego em uma Orquestra Filarmônica em Tóquio.

É obrigado a retornar, com sua esposa Mika,  a sua cidade natal, Yamagata. Lá chegando encontra dificuldades de adaptação financeira e profissional. Entra em contato com um empregador que lhe oferece bom dinheiro para um trabalho instigante…

Com o passar do tempo de experiência, Daiko percebe o quão repugnante é o seu trabalho.

Ignora da esposa o tipo de emprego que tem.  Atitude que toma devido ao preconceito referente a esta atuação que não era bem vista pelo povo da localidade.

Porém, ao descobrir tal ocupação, Mika se separa dele.

Daiko continua mesmo assim por passar a compreender o valor de seu ofício. Que trabalho misterioso é este?

Consistia em acondicionamento de corpos. Limpar, maquiar e preparar os mortos, ajudando-os a partir.

Os familiares, que assistiam a cerimônia de limpar os corpos, começaram a ver com outros olhos este trabalho. Isto se deu devido ao cuidado e respeito de como era lidado o corpo já sem vida de seus entes queridos.

Resgates são feitos perante as cerimônias envolvendo traumas, brigas e outras questões vitais.

O próprio Daiko passa por experiências significativas em relação à morte do pai que ele julgava ausente.

O que a vida lhe estava colocando à prova?

Que peças estranhas estavam pregando o destino?

O que fez com que ele permanecesse no emprego?

Vamos analisar estas questões.

 

Vários preconceitos sobre homossexulidade foram trazidos à tona no momento da preparação do corpo de uma jovem e dissolvidos ante as evidências das surpresas e desabafos dos familiares.

Ou o marido rude que, ao ver a esposa bela no caixão, agradece-o por tê-la deixado tão linda como nunca a tinha visto antes.

E os pais revoltados com a morte da filha em acidente de moto num jogo de culpas mútuas, que durante o acondicionamento revelam o perdão perante a atitude cerimoniosa.

A avó que parte e reúne, através do ritual, a família no resgate da alegria da vida.

Também proporcionou a naturalidade da partida como outro aspecto de novos caminhos. Enfim os momentos difíceis que podem ser resignificados através de atitudes de respeito e gratidão ao lidar com a morte.

Que pode surgir desse instante que mostra a finitude da vida? O não mais pertencer?

Entretanto, por parte de Daiko, alguns aspectos foram elucidados tais como: o resgate da relação paterna projetada na figura de seu empregador, o Sr. Yamashita que o leva a compreender a relação da comida com a vida.

O alimento que ingeriam era de seres vivos: ovas, carne e frango, simbolizando a vida frente a morte.

O peixe precisava morrer para gerar vida. As ovas do peixe eram cadáveres que teriam que ser comidas para alimentar os vivos. Que se fosse para comer que fosse prazeroso.

Então a morte poderia ser vista de outra forma.

A dicotomia morte/vida – o salmão que sobe a correnteza para morrer na intenção de procriar-se. Também a vida corre em direção à morte.

A mesma reverência perante a vida aparece no momento em que o polvo é poupado da morte.

Algo novo pode surgir a partir desse instante. Isso é  que se teme?

Até a relação afetiva de Daiko passa por uma espécie de morte e renascimento.

Quando ao vê-lo acondicionar o corpo da senhora da Casa de Banhos, Mika se emociona. Compreende a nobreza do trabalho de seu esposo. Passa a entende-lo e a admira-lo e a querer escutar a sua história de vida, as dificuldades que ele havia passado com o pai.

Oportunidade que a vida havia reservado para o resgate do amor em toda sua plenitude. Principalmente a relação dolorosa da separação do pai que lhe prometera dar-lhe todo ano a pedra-carta que simbolizava o estado de espírito de cada um deles dois. E que jamais cumprira, pois o pai o havia “abandonado”.

Novamente a dicotomia: a permanência da música instrumental/a desistência pelo amor do pai..

Porém uma carta interrompe esse estado de coisas cristalizadas pelo tempo.

Mika é a mensageira e a ponte, ao mesmo tempo, para o confronto de Daiko com a realidade do amor do pai.

Após muita resistência, Daiko cede e segue em busca do encontro filial e final.

O descaso para com o corpo do pai morto chama a atenção de Daiko. Cuidara de acondicionar vários corpos e sabia da importância de seu ofício.

Teria ali a oportunidade de ajudar seu pai a partir.

Porém, ao olhar o rosto do pai cadáver, não o reconhece. Nada sente. A não ser a mágoa carregada em seu coração por anos a fio.

Naquele instante esse mesmo sentimento é aplacado por uma neutralização dos sentidos.

Iria apenas realizar seu trabalho.

Mas ao iniciar os rituais, que envolviam respeito e reverência, ao tocar as mãos do pai, ali imóvel, Daiko se depara com algo entre os dedos daquelas mãos frias.

Eis que cai aos pés de Mika a pedra-carta que trocaram na infância há anos passados.

O choque entre fantasia e realidade traz grandes revelações emocionais para o pequeno Daiko que ali se tornara.

Profunda veneração toma conta do momento e Daiko descobre que o pai jamais o abandonara e nunca o havia esquecido.

A pedra-carta cumpre sua missão.

Daiko se inclina perante sua dor e a redime.

Olha aquele rosto e reconhece o pai. Agora pode ver o pai.

Todo o ritual do acondicionamento toma direções significativas e salvadoras.

O Pai está salvo no Filho.

Cria-se o elo entre aqueles que partiram e a nova partida para os que ficaram.

Os portais entre a Vida e a Morte foram transpostos.

A Morte não é o fim. É apenas a passagem para outra dimensão.

A dimensão que coloca a Vida a caminho da Plenitude.

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